A Ficção e sua Influência na Realidade – I.

    Nós, como hedonistas no e inconformados com esse mundo, devemos fazer uso de tudo de bom que a cultura produz, precisamos apreciar e julgar subcriações feitas pelos que são imagem do nosso Deus e glorificar ao Senhor pelas coisas boas que ele nos permite experimentar mesmo estando nós caídos. Como John Piper diz: “Deus é mais glorificado em você quando você está mais satisfeito nEle.”. Apreciar um bom filme é sempre um desfrute da criatividade e talento humano que foi dado por Deus a nós. Um filme cheio de efeitos especiais, viagens intergaláctica, viagens no tempo, heróis e etc, muitas promovem em nosso imaginário relações diretas com a criação, a redenção, e demais coisas que nos lembram do Senhor e sua obra. Contudo, uma coisa que não podemos esquecer é que nossa produção cultural ficcional está doente, muito dela é produzida por homens completamente libertinos, então devemos ter cuidado.

      A análise de um filme jamais é a análise de uma coisa, de um objeto imóvel. “Quando analisamos um filme, nós estamos, pelo menos em parte, analisando a mente por meio do filme” (YOUNG), por isso não devemos ser passivos ao analisar essa forma de entretenimento, pois como todo discurso humano, o cinema não é imparcial. Ele nos influencia constantemente. Cabe a nós saber quem exatamente está nos influenciando, e ao que está influenciando, para então podermos nos posicionar social, cultural, política e teologicamente a respeito do que está diante de nós.

     Os filmes são carregados de significados, todo filme é organizado de um modo que cada corte; cada luz; cada enquadramento; cada tom de fala; cada roupa; cada ambiente, são organizados de modo que o telespectador não tem apenas um filme diante de si no cinema, mas um texto – e muitas vezes um texto dissertativo argumentativo.

     Sobre o cinema, o psicólogo Snik Dine Young diz: “[…]os filmes são janelas ou espelhos para o mundo do comportamento humano, do funcionamento da mente e da própria natureza humana.” 1(YOUNG). Os filmes são uma exposição da mente humana para a mente humana. Por isso, não está diante de nós apenas um filme quando estamos acomodados na sala de cinema, mas também a mente humana, não só a do roteirista e diretor, mas talvez da sociedade. O filme é a janela, por meio dele podemos analisar um pouco do que se passa na mente tanto dos criadores quanto da sociedade em que se vive. O filme também é um espelho pelo qual nos enxergamos na história, na mensagem, cosmovisão e personagens.

     Não podemos ignorar a linguagem convincente do cinema. Em 1990, a American Psychological Association anunciou que iria criar um comitê dedicado a monitorar as formas em que os psicólogos estavam sendo representados na mídia, especialmente por conta da forma com que eram representados no cinema. Algumas das distorções que esses profissionais sofreram no cinema são vistas até hoje, e já naquela época, tais representações fizeram com que a APA (American Psychological Association) se manifestasse a respeito. Não foi à toa, pois, nesse período, os psicólogos eram comumente representados como:

Meros conselheiros;

Aproveitadores de fragilidades;

Loucos sem credibilidade;

Criminosos; etc.

     Ainda hoje, a imagem que se tem desses profissionais é completamente distorcida. Contudo, a preocupação da APA não estava direcionada apenas à profissão, mas aos pacientes. Outro grande problema é a forma com que pessoas que sofrem de doenças mentais são retratadas no cinema. Não é incomum vermos vilões terem suas ações justificadas pelos seus problemas psicológicos.

Psicopatas;

Loucos;

Pessoas violentas;

Pessoas completamente inconfiáveis.

Lembra personagens como Coringa (DC) e Mercenário (MARVEL).

     Esses são o retrato de pessoas com problemas mentais no cinema. Se você tem medo de ficar perto de pessoas que se sabe que tem problemas mentais, é porque você já foi demasiadamente influenciado por essa narrativa. Para exemplificar a influência de um filme:

“Uma pesquisa realizada demonstrou que adolescentes que eram “vulneráveis” (experimentavam sintomas depressivos ou suicidas) estavam mais propensos a acreditar que o tratamento seria ineficaz depois de assistir a filmes como As Virgens Suicidas, Garota, Interrompida e Uma Mente Brilhante.”2 (YOUNG)

“O Amor Não Tem Preço [Lovesick], uma comédia romântica da década de 1980 estrelada por Dudley Moore como o doutor Saul Benjamin, um psiquiatra que decide manter um relacionamento com uma de suas pacientes. Essa decisão romântica o liberta e o inspira a abandonar a sua lucrativa atividade psicanalítica para ajudar os pobres. Foi constatado que os participantes que assistiram ao filme se mostraram mais tolerantes com relação ao relacionamento sexual entre um terapeuta e uma cliente do que os participantes que não tinham assistido ao filme.”3 (YOUNG)

     Em seu livro “A Psicologia vai ao Cinema”, Dine diz que essa preocupação se da porque a psicologia é real, o psicólogo é real. Diferente da representação cinematográfica da fantasia, ao representar o psicólogo, os responsáveis pelo filme estão lhe-dando com algo real e que pode distorcer a visão dos telespectadores a respeito do profissional.4 (YOUNG) .

     Se o cinema nos leva a ter preconcepções sobre as mais diversas coisas, se preconcepções que distorcem coisas reais – como profissões e doenças – são um cúmulo, por que deveríamos nós, os que portam a Verdade Escrita, ficar passivos diante de retratos cinematográficos que distorcem aquilo que foi criado por nosso Deus? Devemos nos posicionar. Enquanto continuarmos consumindo e ficando calados diante da produção cultural    que    rivaliza     com    a    vontade    de    Deus,    só    seremos     influenciados indiscriminadamente até que imitemos naturalmente aquilo que nos é proposto como real.

      O professor e psicólogo Dine Young se disse preocupado com seus alunos de psicologia no que diz respeito a influência que eles podem sofrer por meio da cultura, mesmo sabendo que seus alunos tem maturidade e conhecimento científico sobre sua profissão e patologias da mente. Ele diz: “às vezes me pergunto quanto tempo durará o seu esclarecimento quando eles se virem novamente diante do ataque da cultura popular.”5 (YOUNG)

     Por uma variedade de motivos, podemos concluir que a projeção ficcional que lida com o real pode ser a maior produtora de fake news do imaginário humano.

“Em todas as épocas, os homens são em larga medida moldados pelas ideias que os governa e que controla suas imaginações. Os homens julgam-se pelos critérios de seu tempo e pelas ideias acerca daquilo que constitui a vida. Sua fé está muito relacionada com aquilo que torna a vida digna de ser vivida.”6 (RUSHDOONY, 2018)

     Devemos, pois, ser cautelosos, filtrar o que lemos, assistimos e ouvimos pela palavra de nosso Deus. Não estamos imunes ao mal por sermos sal dessa terra, precauções a respeito deste século foram dadas pelo próprio Senhor Jesus e seus apóstolos. O combate cultural é longo, e nem sempre fugir é a melhor forma de escapar da cultura libertina. Próximas postagens tratarão um pouco mais do problema e dos modos bíblicos de combatê-lo.

_________________________________

1 YOUNG, S. D. A PSICOLOGIA VAI AO CINEMA. [S.l.]: Editora Cultrix.

2  Id. Ibid., posição 1321.

3  Id. Ibid., posição 1330.

4  Id. Ibid., posição 1233.

5 Id. Ibid., 1246.

6 RUSHDOONY, R. J. A Política da Pornografia. Brasília: Monergismo, 2018.

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